O que você está tentando proteger ao não mudar?
As histórias que contamos para nós mesmos quando o novo assusta e como atravessá-las
Será que você já ouviu uma voz sussurrar coisas do tipo: “Não é o momento certo.” “Preciso me preparar mais.” “E se eu me arrepender?” “Já estou velho demais pra isso.”
Há sempre uma força invisível por trás da nossa resistência à mudança. Essas não são apenas frases soltas que surgem na nossa cabeça do nada; são histórias que contamos para nós mesmos. E elas são muitas vezes tão fortes e convincentes que parecem verdades absolutas.
No entanto, em sua grande maioria, são apenas escudos de autoproteção que a nossa mente cria como forma de nos manter "seguros", mas que, ironicamente, também nos mantêm presos.
E se, em vez de apenas aceitar como verdade, pudessemos abrir um diálogo para compreender melhor de onde vem essas histórias? E se pudéssemos entender o que elas têm a dizer sobre o que realmente estamos tentando proteger?
Bem, eu não sei bem quais dessas histórias têm aparecido aí para você, mas senti de usar esse espaço hoje para compartilhar com você algumas das que eu mesma contei para mim. Quem sabe você se reconhece em alguma delas?
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Algumas das histórias que "quase” me paralisaram
Eu sonhava em morar fora do país e por duas vezes eu desisti porque pensava: “eu me esforcei tanto para chegar até aqui e tenho medo de perder tudo o que conquistei”. A ideia de interromper minha carreira e me colocar “fora do jogo” me paralisava. Eu acreditava que sem o meu trabalho eu perderia não só o meu lugar, mas também o meu valor no mundo.
Mas mudança alguma simplesmente apaga o que foi; apenas transforma o que é. Nossas histórias e conquistas não se perdem de forma alguma, elas continuam em nossa bagagem e com aquilo que escolheremos carregar para o próximo ciclo. Elas são parte essencial de que nos tornamos e serão a base do que viermos construir depois.
Quando eu disse não para essas oportunidades, lá no fundo parte de mim acreditava que “eu ainda não estava pronta para dar esse passo.” E essa talvez seja uma das maiores mentiras que contamos a nós mesmos — a de que um dia estaremos 100% prontos para mudar.
Ninguém está pronto para sair da zona de conforto. Essa ideia que temos de que não somos corajosos o suficiente para mudar só nos afasta ainda mais do que desejamos. Coragem não chega antes da decisão; ela aparece depois que a gente decide agir – por menor que seja esse primeiro passo.
Mais tarde, quando fiz minha transição, ela não começou com a decisão de morar fora. Eu apenas disse sim a uma viagem de férias para visitar o lugar no qual eu me via morando. E essa pequena ação disparou todo o resto, me levando a pedir demissão trinta dias depois de ter embarcado naquele avião. E não; o medo não tinha ido embora, mas a vontade de viver aquilo para mim ficou insuportavelmente maior.
Estamos acostumados a nos preparar demais planejando, colocando no papel, mensurando na planilha. Tudo isso vale? Sim, com certeza; mas o melhor preparo vem com a ação, o movimento.
Só que parte desse se permitir nos movimentar vem de nos desapergamos à ilusão de que teremos o controle de tudo que vai acontecer dali em diante. E, por muito tempo, eu achei que para mudar “eu precisava ter certeza do que ia acontecer”. Eu achei que podia controlar cada passo da minha transição: planejar o caminho perfeito, prever cada surpresa, evitar qualquer desvio.
Mas descobri que, em uma jornada como essa, quanto mais tentamos segurar as rédeas, mais pesado e travado o processo fica. Direção, sim, é essencial — um norte para nos guiar. Mas o caminho? Aqui o poeta espanhol Antonio Machado estava certo:
“Caminhante, não há caminho, o caminho se faz ao caminhar.”
Pensa comigo: o nosso cérebro jamais será capaz de imaginar todas as inúmeras possibilidades de coisas que podem acontecer. Então, quando colocamos foco demais em somente uma possibilidade (aquela única forma que conseguimos enxergar) acabamos por enrijecer nosso processo e, por consequência, eliminar as outras possibilidades mesmo que sem querer.
De todos os caminhos que minha mente podia conceber, eu jamais imaginei que minha transição me traria até aqui — vivendo o que vivo hoje. Se você me perguntasse lá no começo, talvez eu até diria que seria um pouco impossível.
O novo tem o poder de nos surpreender quando damos espaço para isso acontecer, aceitando o convite da jornada, e não a garantia do resultado da forma como vemos hoje.
Mas, é claro, que ao começar minha transição aos meus 36 anos eu também me peguei pensando que “talvez fosse tarde demais para isso”. Na minha cabeça, esse tipo de mudança eu deveria ter feito nos meus vinte e poucos anos.
Pensando bem, se há algo de que talvez eu me arrependa, é de não ter começado antes. Hoje fico feliz quando recebo jovens próximos dos seus 29 ou 30 e poucos anos buscando uma transição já conscientes de que a mudança é necessária. Me traz recordações de quando os meus primeiros questionamentos começaram a surgir. Mas fico ainda mais feliz quando vejo clientes recomeçando aos 48, 54, 62 anos e mostrando que não há idade certa; sempre há tempo para mudar.
O que realmente estamos protegendo?
Por trás de cada uma dessas histórias que criamos, por mais limitantes que pareçam, há um desejo legítimo e humano: segurança, conforto, pertencimento, reconhecimento. São as nossas necessidades mais profundas buscando proteção.
Mas quando essas histórias se tornam as regras que ditam nossas escolhas, elas deixam de nos proteger e, ironicamente, começam a nos "manter atracados" a uma vida que não nos serve mais.
É aí que começa o nosso processo de transição: não lutando contra essas histórias, mas reconhecendo-as, compreendendo porque elas estão a nos paralisar, e então, gentilmente, ganhando consciência para mudá-las.
Quer um auxílio para transformar essas histórias que estão te impedindo de mudar?
A metodologia CORE do Programa de Transição foi desenhada para te guiar por essa jornada. Nela, você:
Conecta com a sua história para entender o que te trouxe até aqui, mas também enxergar o que te trava nesse momento.
Orienta sua jornada trazendo claro aquilo que hoje te move e que será o norte da sua transição.
Reconhece o seu potencial e as possibilidades de caminho a partir disso, além de entender quais deles fazem mais sentido nesse seu momento.
E se Empodera das sua próprias escolhas para você atravessar o medo e começar a agir.
Toda mudança começa com um ato de coragem, sim — mas antes disso, com um ato de honestidade: olhar para as histórias que você vem contando e se perguntar o que está realmente tentando proteger ao não mudar.
🎙 A dica de hoje é o bate-papo gostoso e inpirador que tive com Gabriella e Carla para o podcast Projeto Delas e que acaba de ir ao ar. Contei muitos detalhes da minha jornada de transição até aqui para esclarecer várias dúvidas que talvez você possa estar enfrentando nesse momento. Dá uma espiadinha no vídeo abaixo ;)
Até a próxima semana!



